Ontem olhei o mar e pensei
Se seria sensato mergulhar nele
Como vagabundo ou como rei
Ambos disfarçados com a minha pele.
(E sonhei um combate desenhado
A traços de ácido clorídrico
Com gritos de amotinado
E penas de mafarrico.)
Era a tarde de um dia chuvoso
Na avenida desfilavam trabalhadores
Sob o olhar de um deus judicioso
Como presas seguidas por caçadores.
A voz das ondas era rebelião
Anteparas do tempo e do sexo
A fome e a dor como navalhão
A circuncidar esquecido amplexo.
(Seguro a espuma caída das ondas
Como estandarte afogueado em vento
Cumprindo escrupulosas rondas
Em muralhas ávidas de sustento.)
Hoje olhei o mar e pensei
Vi sombras fugidias envergonhadas
E um som perpétuo que julguei
Ser passos de sereias amortalhadas.
Não sei se como vagabundo ou como rei
Amanhã vou olhar de novo o mar que olhei…
31Dezembro2009




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